Entenda como gigante coreana pediu falência, disse ter R$ 109 de saldo e pode dar calote milionário em negócios brasileiros

  • 24/01/2026
(Foto: Reprodução)
Gigante coreana pediu falência, diz ter R$ 109 de saldo e pode dar calote milionário. A empresa sul-coreana Posco Engenharia e Construções do Brasil entrou com um pedido de autofalência na Justiça brasileira em agosto de 2025 alegando crise financeira insanável, com dívidas de mais de R$ 644 milhões. O pedido foi aceito pela Justiça em setembro do ano passado. Empresas credoras, no entanto, recorreram do pedido de falência e alegam suposta fraude da sul-coreana. A empresa atuou entre 2013 e 2018 na construção da siderúrgica do Pecém (CE), projeto de US$ 5,4 bilhões. Parte das empresas contratadas pela Posco Brasil afirma não ter recebido pelos serviços prestados, o que gerou uma série de ações judiciais. No pedido de falência, a Posco Brasil declarou não ter como pagar as dívidas, o que levou credores a contestarem o processo, alegando que a falência teria sido planejada para evitar pagamentos. ✅ Clique aqui para seguir o canal do g1 Ceará no WhatsApp Conforme os documentos do pedido de falência, aos quais o g1 teve acesso, a Posco Brasil lista 47 credores, isto é, pessoas físicas ou jurídicas para quem ela deve dinheiro. Entre eles estão ex-funcionários, pequenas e grandes empresas ou entes públicos, como a Fazenda Nacional, o INSS e a Receita Federal. Na papelada, a empresa assume que a dívida de R$ 644 milhões pode ser maior, uma vez que estão na Justiça outros processos de fornecedores cobrando a Posco Brasil. No pedido à Justiça, os advogados da empresa destacaram que "não há qualquer perspectiva de solução do endividamento, ante a inexistência de novos recursos e insuficiência de ativos". A Posco Brasil foi fundada para atuar na construção da Companhia Siderúrgica do Pecém (CSP), em São Gonçalo do Amarante (CE) Divulgação/CSP No pedido de falência, a empresa afirmou que tem cerca de R$ 11 mil em ativos disponíveis e que todo o patrimônio que possui é um Ford Fusion 2015, avaliado em R$ 70 mil; um terreno no município de São Gonçalo do Amarante, comprado por R$ 1,6 milhão. Na conta corrente, o saldo é de R$ 109. Um dos primeiros efeitos do pedido de falência aceito é que ficam sustadas todas as cobranças de credores contra a Posco Brasil. Na sequência, os valores são compilados pela Justiça, que cria um plano de pagamento. Se a tese da incapacidade financeira da Posco Brasil for mantida, os itens listados como patrimônio, que não ultrapassam R$ 1,6 milhão, seriam vendidos para saldar os débitos de R$ 644 milhões, com a quantia arrecada sendo distribuída entre os credores conforme as prioridades estabelecidas pela legislação. A maioria não receberia nada. Algumas empresas participantes da Associação Internacional de Credores da Posco – criada pelos fornecedores que cobram dinheiro da Posco Brasil – entraram na Justiça para barrar o pedido de falência. Elas alegam que a falência é fraudulenta e foi propositalmente planejada para evitar o pagamento das dívidas. O grupo também afirma que o valor da dívida e a lista de credores é ainda maior, uma vez que no processo de falência não estão listados todas os fornecedores que buscam ressarcimento. O pedido de falência foi aceito pela 3ª Vara Empresarial de Recuperação de Empresas e de Falências da Comarca de Fortaleza em setembro de 2025, e em novembro foi publicado o edital com o processo de liquidação do patrimônio da empresa. Apesar dos recursos, o caso segue na primeira instância. Entenda o imbróglio abaixo: Contratos de construção Inicialmente, a Companhia Siderúrgica do Pecém (CSP) foi um projeto bilionário tocado por duas empresas: a brasileira Vale e a sul-coreana Dongkuk. Mais tarde, a também sul-coreana Posco entrou no negócio, com a CSP ficando 50% com a Vale, 30% com a Dongkuk e 20% com a Posco. A Posco é uma multinacional da Coreia do Sul, considerada a maior de siderurgia do país e a sexta maior do mundo no ramo. A empresa possui diversos braços, entre elas, a Posco Eco & Challenge, especializada em construção. A siderúrgica a ser construída do Ceará teria capacidade inicial de 3 milhões de toneladas de aço por ano. As três acionárias da CSP concordaram em contratar os serviços do ramo de construção do grupo Posco para a obra. O investimento seria de cerca de US$ 5,4 bilhões. Companhia Siderúrgica do Pecém (CSP) em 2017. Empreendimento teve investimento de US$ 5,4 bilhões CSP/Divulgação Pela legislação brasileira, para uma empresa estrangeira atuar no Brasil, ela precisa de um Cadastro Nacional da Pessoa Jurídica (CNPJ), isto é, ela precisa abrir uma filial brasileira. Por isso, foi criada a Posco Brasil em 2011, com participação acionária de 99% da Posco Eco & Challenge. Para realizar as obras da siderúrgica, a Posco Brasil, nova no território brasileiro, terceirizou os serviços e contratou diversas empresas. Da terraplanagem à locação de equipamentos, praticamente todos os serviços da obra foram realizados por terceiras. As obras começaram efetivamente em 2013 e a siderúrgica já estava em operação em 2016, embora os serviços de construção só tenham sido oficialmente concluídos em 2018. A sociedade da Vale, Dongkuk e Posco não durou muito: em 2022, a CSP foi vendida para a gigante da siderurgia ArcelorMittal por US$ 2,2 bilhões, menos da metade do valor investido na construção. O grupo Posco, portanto, não tem mais relação com a siderúrgica. E a nova dona da siderúrgica, a ArcelorMittal, não tem relação com a dívida. Por meio de nota, a ArcelorMittal reforçou que "não teve e não tem qualquer relação ou ingerência em negócios realizados pela Posco Engenharia e Construção do Brasil com suas respectivas subcontratadas. Além disso, as fornecedoras citadas não mantêm quaisquer relações comerciais com a ArcelorMittal Pecém". Enquanto isso, parte das empresas contratadas pela Posco Brasil para erguer a siderúrgica não receberam o dinheiro pelos serviços para os quais foram contratadas ou receberam apenas uma parcela do valor devido. A falta de pagamento fez com muitas fornecedoras recorressem à Justiça com os trabalhos de construção ainda em andamento, dando início ao imbróglio jurídico que culminou, em 2025, no pedido de falência da sul-coreana. Infográfico - Local da obra da siderúrgica que seria feita no Pecém em parceria com empresa sul-coreana. Arte/g1 Pedido de falência Em agosto de 2025, quando já havia sido condenada diversas vezes na Justiça a pagar dívidas acumuladas, a Posco Brasil entrou com um pedido de autofalência. Àquela altura, a empresa não executava nenhuma obra no Brasil desde 2018 e, essencialmente, mantinha apenas um endereço fiscal em um escritório de coworking no bairro Joaquim Távora, em Fortaleza. No pedido de falência, a empresa alegou uma série de motivos para os problemas financeiros, entre eles: Prejuízos devido ao “aumento acentuado dos custos de mão de obra, materiais e logística” Atrasos no projeto que ocasionaram o ajuizamento e ações judiciais que impactaram de forma negativa o fluxo financeiro Falha na obtenção de novos contratos desde a conclusão da siderúrgica em 2018 Concorrência do aço importado da China Recessão econômica no Brasil entre 2014 e 2016 Pandemia de Covid-19 em 2020 Diante deste cenário, em 2025 a empresa entrou com o pedido de autofalência “para não aumentar os prejuízos aos seus credores, funcionários e acionistas, tendo em vista que não possui novos projetos – ou qualquer perspectiva de contratação de novos”. Trecho do pedido de falência da Posco Brasil enviado à Justiça do Ceará Reprodução No processo, a Posco Brasil afirmou que deve cerca de R$ 644 milhões, divididos em: Dívidas trabalhistas (com outras empresas): R$ 573 milhões Dívidas tributárias (com Fazenda Nacional e a Receita Federal): R$ 33 milhões Dívidas quirografárias (com outras empresas): R$ 10,4 milhões Dívida intercompany (empréstimos tomados com a controladora sul-coreana): R$ 26,6 milhões Nos credores – como são chamados aquelas com quem a Posco Brasil tem dívida - estão 47 nomes, entre empresas, ex-funcionários e órgãos públicos. Na lista estão cidadãos brasileiros e sul-coreanos que moram no Brasil, ex-funcionários que buscam verbas indenizatórias e empresas de pequeno porte. Há credores de São Paulo, Rio de Janeiro, Maranhão, Bahia e Rio Grande do Norte. A lista tem algumas peculiaridades. Em comunicação posterior à Justiça, após o pedido de falência ser apresentado, a União comunicou que os débitos tributários não são de R$ 33 milhões, como informados pela Posco Brasil, mas sim de R$ 42 milhões. Há também um débito de mais de R$ 1 milhão com o INSS. Dos R$ 573 milhões nas chamadas dívidas trabalhistas, R$ 567 milhões são para um único fornecedor: o escritório de advocacia Campelo Costa, localizado em Fortaleza. Conforme apuração do g1, a dívida inicial era de 50 milhões de dólares, advinda de um contrato firmado em 2011. A briga na Justiça começou em 2017. Nos últimos anos, a sede da Posco Brasil foi um escritório de coworking em Fortaleza (CE) Reprodução/Google Street View Após não ser pago, o escritório recorreu à Justiça, e ao longo de quase uma década o valor foi atualizado para o número atual, corrigido por juros, multa e outros encargos. A quantia é contestada pela Posco Brasil. Além disso, existem as ausências. Após o pedido de falência, a empresa de aluguéis de equipamentos de construção Maqloc entrou com um pedido na Justiça para barrar o processo. A Maqloc, do empresário cearense Beto Studart, cobra R$ 22 milhões da Posco Brasil por aluguéis de equipamentos, máquinas quebradas e prejuízos. O valor devido à Maqloc, por exemplo, não consta na lista inicial entregue pela Posco à Justiça em agosto de 2025, e é citado pela Associação Internacional de Credores da Posco como um exemplo das “falhas” do processo. Por meio de nota, o Tribunal de Justiça do Ceará (TJCE) informou que a 3ª Vara Empresarial de Recuperação de Empresas e de Falências da Comarca de Fortaleza decretou, em setembro do ano passado, a falência da Posco Brasil e que em,dezembro a Justiça rejeitou o recurso apresentado contra a sentença de declaração de falência. "Atualmente, o processo segue em tramitação regular no primeiro grau", completou o tribunal, sem citar os novos recursos de credores. Obras da siderúrgica do Pecém foram tocadas pela Posco Brasil, que subcontratou empresas coreanas que subcontrataram brasileiras Reprodução/Sindicato Nacional dos Auditores-Fiscais do Trabalho Inconsistências e alegações de fraude A Justiça do Ceará acatou o pedido de falência da Posco Brasil em setembro de 2025. Na sequência, o magistrado Daniel Carvalho Carneiro designou a empresa Farias e Lucena Serviços Administrativos para lidar com as questões de liquidação de dívida: avaliar o patrimônio, como seria vendido, quem seria pago, e por aí vai. A Posco Brasil afirma, por exemplo, que possui cerca de R$ 47,7 milhões em ativos que poderiam ser utilizados para ajudar a saldar as dívidas. A maior parte da quantia está descrita como ativo não circulante – aquele ao qual não se tem acesso a curto prazo, seja porque está empenhado com terceiros, seja porque está bloqueado pela Justiça. A Posco afirma também que dos R$ 47,7 milhões, apenas R$ 11 mil são ativos circulantes, isto é, dinheiro que ela poderia desembolsar de imediato ou a curto prazo. Além disso, foram listados os bens patrimoniais, o Ford Fusion 2015 e o terreno em São Gonçalo do Amarante. O carro usado foi encontrado pela Farias e Lucena Serviços Administrativos em uma barraca de praia em Caucaia, com o pneu furado, um retrovisor quebrado e cerca de R$ 1 mil em multas. O valor do terreno em São Gonçalo do Amarante será avaliado mediante preço de mercado. Na conta corrente, a empresa tinha R$ 109 disponíveis, e além de R$ 4.798 em aplicações financeiras. Ao g1, o presidente da Associação Internacional de Credores da Posco, o advogado Frederico Costa, explicou que quer provar na Justiça que a Posco Brasil fez uma falência planejada, com objetivo de enviar todos os lucros para a empresa-mãe, na Coreia do Sul, e deixar o Brasil sem pagar as dívidas. Veículo declarado pela Posco Brasil como um dos seus poucos patrimônios no Brasil Reprodução A empresa de Frederico é a que possui o maior valor a receber da Posco Brasil: são R$ 567 milhões, valor alcançado após um contrato de US$ 50 milhões, apenas parcialmente pago, ser corrigido pela Justiça pelo câmbio, com multa e outros encargos. “Como é que a pessoa deixa passar 5,5 bi [valor movimentado pela empresa na construção da siderúrgica no Ceará], não reserva de valores para essas pessoas serem pagas, e deixa na conta menos de mil reais numa conta?”, questiona Frederico. “Então o que vai acontecer se essa falência seguir? Eles vão vender esse automóvel, vão vender esse terreno, vão apurar lá um milhão, vão pagar os credores na ordem, os mais importantes, e os outros 643 milhões de reais vão ficar por isso mesmo. Isso é que é a fraude” Em outubro de 2025, o escritório Campelo Costa obteve na Justiça cearense uma vitória relacionada à dívida da Posco Brasil com eles. Na ocasião, o magistrado se referiu à Posco Brasil como uma "empresa de uma obra só" e estendeu para a Posco Holdings (a controladora de todos os braços da Posco no mundo) a responsabilidade pela dívida no Brasil. A decisão, em caráter liminar, é diferente do processo de falência, que segue intacto, mas foi considerada um primeiro passo na meta da associação de responsabilizar os sul-coreanos pela filial brasileira. Uso de terceiros Além disso, a associação acusa a sul-coreana de se valer de um esquema de empresas criadas especificamente para se endividar e fechar. Uma delas é a CMI Santos. A empresa era contratada pela Posco Brasil e, por sua vez, contratava terceiras. Ela encerrou as atividades sem pagar fornecedores nem impostos. O vínculo da CMI Santos com a Posco Brasil, ainda que não figure de forma clara no pedido de falência, é parcialmente reconhecida em outras instâncias. Parte dos R$ 42 milhões em impostos cobrados da Posco Brasil pela Fazenda Nacional e pela Receita Federal, na verdade, são originalmente da CMI Santos. O ônus foi sido repassado para a sul-coreana justamente pelos vínculos entre duas. Outro caso semelhante é da coreana Dongyang Construction, contratada pela Posco Brasil. Em 2015, ela alugou equipamentos de construção junto à cearense Maqloc, parou de pagar em 2016 e deixou o país em 2019. A Maqloc judicializou o caso e obteve decisões favoráveis para cobrar a dívida de R$ 22 milhões da Posco Brasil. A Associação de Credores também alega que o presidente da Posco Brasil, o engenheiro sul-coreano Jonguk Moon, deixou o Brasil em 2025 pouco após o pedido de falência e voltou para a Coreia do Sul. Desde então, não houve mais nenhum contato entre ele e os antigos funcionários, tampouco com os credores, com todo o processo de falência sendo conduzido por advogados via procuração. Assista aos vídeos mais vistos do Ceará N

FONTE: https://g1.globo.com/ce/ceara/noticia/2026/01/24/entenda-como-gigante-coreana-pediu-falencia-disse-ter-r-109-de-saldo-e-pode-dar-calote-milionario-em-negocios-brasileiros.ghtml


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